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Eclipse

 O escuro das minhas sombras ilumino com poesia. Já quis muito negar-lhes espaço na minha vida... Hoje percebo que nelas jogo a minha luz e no contraste tão agridoce, antes que me azede, elas me cedem sua beleza narcísica em forma de Arte.  Eu bem que reparo narciso no outro. Nele projeto minhas sombras narcísicas também. Elas sussurram: ele não tem luz própria, quer alimentar-se da sua luz! Me sinto Sol. E queimo-me em explosões de Ego. Ok, Ele me protege, diz-me quem sou e que o que vejo é apenas reflexo de mim... Mas antes que eu me afogue no canto da sereia... E exploda a vida alheia... Eu sossego. Leoa. Seja mais gata. Faço me carinho, ronrono. Observo os fantasmas que me sugam nessa solidão das sombras... Da luz do Ego lhes projeto, esforço, envio. Luz que me cega agora ilumina. Traz de volta a vida. Traz-me de volta à vida. Já me entendo outra vez Lua. E que nunca fui sua e que ninguém foi de mim.  Dodói que não doi mais, mas ainda cheira cicatriz. Foi atriz que de...

Poética da Re-existência (pros crias)

Companheirx, re-existamos! Num ato de fé sejamos tudo aquilo que quiseram nos fazer morrer... O genocídio da nossa gente começa na mente. A força da mulher, a cura do rapé, o ato de fé! A língua, os corpos, a Arte que é parte de algo maior... Tudo isso que nos roubaram: violentaram a nossa fé. Sim, que seja assim, repetido três, quatro, cinco, seis vezes, três vezes... Fé, fé, fé, fé, fé, fé, fé... Re-existamos. Somos frutos da nossa gente, eles matam, mas nois é igual semente... Da árvore que nois veio, raizes profundas, crias mas nunca mais mudas, florescemos, crescemos, pro-criamos... Nos re-inventamos... Lugares tão nossos, e essa merda toda pra nois é tudo adubo... Eu não mudo. Eu não me mudo. Por isso eu falo, por isso eu canto. Nos transformam. Nos trans-formamos. Raizes profundas. Eu vim pra semente. Nasci na sua mente. Re-existamos.

Filhas da Terra

- Xiiiuuuu - Foi o sussurro - É o vento? - A brisa? - São as vozes, minha querida... - Xiuuuu!! - Escuta!!! - Arrepio... Quem me cutuca? - Para e apenas e escuta! - É a minha alma? - Escuta tua alma! - São meus pensamentos? - Deixe-os ir no rio da vida... - Minha querida, são as almas... - As vozes? - Sim, suas raizes... - Suspiramos sabedoria em teus ouvidos... - Desde a sua infância, desde que te parimos, cuidamos de ti. - Abandona teus pensamentos princesa, escuta tua alma, ouça tuas vozes! - Mas eu nem gosto de monarquia... - Esquece essas palavras brancas. Traduza a língua morta da tua gente que nunca morre. Tu és filha das filhas da terra. És princesa onde quem reina é a sabedoria da Terra. Taxaua.

Mascarados

Eu tinha decidido não tomar qualquer decisão sobre sentir ou não sentir, valer ou não valer, querer ou não querer, aceitar ou não aceitar, ser ou não ser... Nada que não fosse feito a partir do olhar... Eu decidiria olhando nos seus olhos... Nada mais de digitar. Nada que fosse virtual. Eu tinha escolhido viver apenas o que fosse real... Tem ate um bilhete na minha geladeira: "só o agora é real. Só o que existe agora existe de verdade"... E o que existe agora?... Ironia da vida... Então ria! Rir pra não chorar... De quantas vezes eu desviei o olhar... Quantas vezes eu nem quis te encarar, eu nem quis me encarar... eu nem quis encarar... E agora eu nem sei mais o que era pra se encarar... Talvez agora o real seja virtual... Eu sei lá... Tem uma certeza calada no peito... mas eu não gosto de olhar pra ela... Ela mora lá, não sei como é que eu lhe concebi... Mas ela mora lá... É como engravidar de vez única... Fizemos sexo sem proteção. Deveria existir camisinha de olhar, pra en...

Igual mente

Sou filha do mato, caminho na terra Pra tudo que faço, existe uma reza Sou filha do tempo, laçada no mato E muito se engana, quem pensa que parto Eu curo a terra, assim me refaço Em tudo que comes, existe meu rastro Sou filha do vento, e levo sementes Em tudo que mentes, farejo teu rastro Sou filha do mato, te dou teu veneno Em tudo que benzo, limpo teu rastro E não me arrependo, justiça te faço Devolvo teu pranto, que me arrancaste Por mais que devastes, é a ti que te arrasas Eu corto tuas asas, e te acompanho Rastejas na terra, escuto teu pranto Eu curo tua mágoa, se te arrependes Não faças piada, escuta minha gente Sou filha da terra, eu vim pra semente Por mais que te enganes, meus filhos não mentem Escuta minha gente, eu vim pra semente E se te arrependes, ainda te flores. Sou filha da terra, a mim tu não fodes. Escuta minha gente, eu vim pra semente Se tu me fodes, eu fodo a tua gente. Escuta minha gente, eu vim pra semente E se tu me fodes, eu fodo...

Filha da terra

Quero muito me encontrar... Procuro pela minha verdade num mundo de pós-verdades e notícias cheias de mentiras... Ainda falo em português, pareço ser uma das últimas que ainda segue utilizando esta língua... Mas tenho me aberto à outra, a nova colonização, já não é a primeira, oxente xamã mirim, agora o fim é the end... Quem entende... Quem me entende?... Já pouco importa, farejo o cheiro da minha verdade... Eu busco nas minhas histórias... Quero dar cursos, fazer aulas, lives, vlogs... Procuro no acervo, de tudo que estudo, de tudo que vejo... Ainda não tem a cara da minha gente... Ainda não tem a cara da minha gente... Minhas mulheres ainda não tem voz... Nem rosto. Talvez tenham nome. São essas marias que benzeriam e saberiam bem ao certo a reza braba, o alimento santo, o chá da terra pra curar essa peste. Saberiam curar os corações feridos da morte, guardando bem os mistérios da vida e do além... saberiam dizer que o barco que traz é o mesmo que leva e que ninguém há de partir sem ...

Happy End

Foi a maternidade que me devolveu a divindade. Nela, eu renasci pro além. Depois de uma quase-morte, eu nasci para vida, decidi entre viver e apodrecer... Eu quase morri denovo... No fundo do poço, me lembrei que era deusa, uma semi-deusa á porta do inferno, eu clamei por socorro à minha parte divina... Eu rastejava na lama da minha mortalidade humana... Tinha dormido com vermes. Agarrada à minha semi-divindade eu encontrei um semi-deus, e dessa junção, conjunção carnal visceral, por intuição, me livrei da maldição, fiz caminho reverso, e na porta do universo, ainda que agora, por hora, sozinha, procriação do gozo da junção das duas partes advinda, eu pari minha nova criação de mim, a deusa hoje que aqui se inscreve feliz.