sexta-feira, 26 de maio de 2017

Caminho ultrapassado

Sabe quando você sabe que se passar por aquela porta, consumar aquele beijo, gozar com aquele sexo, será um caminho sem volta, rumo novo, nova trilha desse caminhar, caminho ultrapassado entre o tesão e o se apaixonar. Há beijos que não são complexos, toques displicentes, sexo fisiológico. Mas há estalos intensos ente algumas peles, toques sensitivos, química incessante que na sua explosão arromba portas, destroça vidas ao redor. Tudo sempre se reconstrói pós explosões, ou por implosão, processo não tranquilo mas possível. Mas o rumo, o caminho que se toma quando se adentra uma dessas portas arrebentadas pode ser sem volta, transformar sujeitos, caminho suspeito, novidade que gera medo, mas também possibilidade de se renovar, gerar mundo novo à sua volta... Todos os passos são possíveis numa vida, e nenhum caminho sem volta, apesar de que todo sujeito se transforma diante do rumo novo que escolheu tomar. Mas não há efeito borracha em nenhuma vida, tudo é ação, tudo é escolha: o passo que se dá diante da porta que se assiste, o passo que não se dá, o passo que desiste. Tudo é rumo novo que se toma, mesmo sem se abrir a porta.

sábado, 20 de maio de 2017

Adeus

Hoje seu corpo repousou, como tua alma talvez já estivesse a repousar. Não sabemos de quanto tempo de angustia ela precisou para encontrar a paz, depois de um ato cruel. Quantos foram os dias de vida a calar sobre olhares e conversas invasivas, não permitidas, ignorada sua dor, sua vontade. Por quanto tempo será que calou, fingindo não ser consigo, não ver o que viu. Sentindo-se culpada, medo de ser apontada como provocadora de um "amor", doentio, propriedade de um macho que só essa sociedade hipócrita autoriza a ser. Hipócrita sim, pois não fosse seu fim trágico, disso ela sabia, seria apontada na rua como provocadora, sentenciada não como vítima. Ainda diante do trágico fim tem quem se pergunte porque ela foi até ali... Sim, eu meu pergunto porque não damos ouvidos a nosso sexto sentido, mas não é isso que querem dizem, querem, como sempre, lhe atribuir algum tipo de culpa que só a mulher sempre tem. Qualquer passo é auto, passível de prova contra a ré, que só é vítima mesmo quando diante de fim tão trágico... Quantas de nós não sabemos se o sentido é sexto ou se é o medo que sempre nos acompanha e que faz em dias assim nos dirigir a si mesmas, num pensamento calado pensando, podia ter sido comigo... Quantas vezes não podia ter sido com a gente, estamos em perigo constante, em qualquer passo dado e não dado, dentro e fora de nossas casas... Eu sei que você sufocou, se angustiou, se perguntando se deveria ou não falar... Seu silêncio de final triste te levou daqui para um lugar de paz, a dor é de quem fica aqui. Sua voz, sua denuncia teria te levado a um caminho difícil, para o qual é preciso muita força pra trilhar, diante dos dedos que se apontam, das explicações e provas que se tem que dar, das injurias e calunias, da descrença... Hoje você só é vítima porque partiu. Seria ódio até de outras mulheres que criadas nessa cultura misógina acusam-se umas às outras, defendendo machos que não lhes respeitam, assim desrespeitam até uma mana em prol de um homem em vão. O corpo é corpo, pedaço de carne sem vida. Mas de alma encarnada difícil pensar nesse aflito final, descrença possível que um ato horrível por qualquer pessoa possa passar. Sua alma singela, o olhar meigo e doce, os amigos que sempre te consideraram demais, eu lembro disso tudo e de suas poucas palavras. Essas poucas palavras que fizeram com que você não falasse sobre essa situação que era demais. O que teria mudado Isa, se houvesse denuncia?... Difícil saber. O que me dói é a dor perto do fim, a violência sem fim que nós, por sermos mulheres, vira e mexe viemos a passar... No mesmo dia que você, possivelmente mais doze mulheres tiveram seu fim...Mas você não é uma estatística, porque hoje a dor dói na gente, a gente que em geral não vê esses números como gente, mas são sim! São treze famílias por dia que choram esse fim. Até quando?... Espero que esteja em paz, que haja essa paz depois do fim. Depois do corpo que descansa, sua alma também enfim. Que haja paz para nós, que precisaremos achar forças para encarar essa realidade de que a brutalidade possa estar bem ali. Que sua família encontre cicatriz possível para o fim deste martírio, que haja luz em saber de ti, ainda que haja dor, não é a dor do desconhecido. Que sua aura de paz te acompanhe na eternidade, enquanto nós seguimos até o nosso fim por aqui. Que não haja mais fins assim, minha linda. Que possamos quebrar com esse tipo de fim. Que aja aprendizado em meio a dor. Que sua alma retorne tendo superado a tragédia em si. Que onde houver ódio possa haver amor. Como diz a música da Legião Urbana: "É tão estranho, os bons morrem jovens (...) os bons morrem antes (...)  vai com os anjos, vai em paz (...) e o que sinto, não sei dizer."

sábado, 13 de maio de 2017

Poesia pra quem não quer dizer, mas diz

Ah... seu eu pudesse te dizer literalmente como me sinto... se eu soubesse o que dizer exatamente, como dizer... e a principal questão: se devo dizer-me... as palavras tem poder de materialidade, por palavras assumimos compromissos, terminamos guerras, selamos a paz...findamos contratos, assinamos divórcio... por palavras damos gravidade às coisas... e eu não quero nada em tom grave, eu quero a suavidade de um lá menor...quero não querer, quero fazer. Mas eu sinto um turbilhão de coisas que se talvez não inomináveis,incomunicáveis, não as quero nominar, comunicar, torná-las pesadas. Sonho contigo, sinto seu beijo, toco seu lábio como jamais toquei nenhum em meus sonhos, beijo demorado o beijo demorado que jamais conseguimos dar, sem interrupções... Sinto vigiado o nosso a dois, ainda que em sonho, fugimos pra cantos e sempre há fim... Teimo em não acordar, desligo o despertador, porque se  não dá pra vivenciar, que pelo menos em sonho eu posso me libertar... Ontem eu até gozei com você, me falando palavras vadias ao pé do ouvido, sem penetração, porque nem em sonho eu consegui ainda saber como é...Tenho devaneios, lembro de sorrisos e olhares, palavras trocadas, infinitas coincidências dialogadas, no bater das asas da borboleta, o caos que invade nossas vidas até então tranquilas em sua rotina de amar...Afasto pensamentos insistentes, tento te esquecer e lembrar que existem mil corpos e almas livres por aí, procurando se encontrar e sabendo o querem... Tenho provado alguns... Gostoso também. Mas é inútil... Pra não chamar de paixão aceitei a teoria do eterno retorno, deve ser um desses meus erros insistentes, de querer o que não posso ter... Fazer o que se esse meu jeito de ser me fez assim, ser errante, que não sabe acertar...Tenho fixação no 69, só pra finalizar.

sábado, 6 de maio de 2017

"Mais vale um pássaro na mão do que dois voando"...

Não! Mais vale todos pássaros voando e nenhum nas mãos!... Ledo engano esse engodo mistificado de se relacionar... propriedade privada do amar!...

Se...

Ah... se ele tivesse dançado comigo como naquele dia tantas outras noite não teríamos fim... Ou teríamos... Foram nossas mágoas que colocaram fim à magia quotidiana... dia a dia de café e aroma, bolo, pão de queijo, conversas no bar... a complexidade humana rouba os minutos de paz do amar... Quando aprenderemos a simplificar?...