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Fina flor do caos

De poeta, artista, todo mundo gosta... Quero ver se suporta chicote batendo nas costas, a navalha cortando na carne, que não há arte que se compare a ferida transfigurada em flor de poesia... A poética, a estética, o ritmo é roto, é flor de lodo, ruido e caos, ritmo e nau a seguir estrelas em mar bravo, embarcação que segue superando tempestade, encenação que se segue antes de naufragio, tentando equilibrar-se sem se afundar... Amar a poesia e toda forma de arte é de alguma parte amar a expressão da dor. O ser humano é cruel.

Ritmo e cicatriz

Seria um sonho saber com menos propriedade sobre violências... O tapa na cara sempre volta... O tapa que nunca recebi, o guspe que nunca caiu... Mas que tava ali e dava pra sentir, apesar de sentir coisa pior...  A porra na cara que era assinatura de humilhação disfarçada de tesão... Eu prefiria não saber dos papos de boteco... Do eco das falas escrotas, os discursos que são usados, reproduzidos pra nos usar... Eu sonhava coisas tolas e lindas e não tinha pesadelos... Não era inocencia, que essa já nem sei mais quando foi que a perdi... Era ingenuidade, incredulidade, o não saber, não reconhecer... A dor doia algumas horas, algumas vezes tão bruta... Eu dilacerava a própria pele, o fio da navalha, a pele que descorava, doia menos, bem menos do que latejava lá dentro mas eu não sabia exatamente de onde vinha... Me iludia que era dor do tédio sem nem mesmo ser burguês... Dor concebida, dor que se analisa, dor reconhecida, tem cara, tem cheiro, fede, lixo que se reconhece... Quem é qu...

Gritar quando falta a voz...

 Em tempos onde tudo é dito, o grito vira eco na multidão de palavras... Às vezes guardo gritos e discursos, como se não tivesse nada que mais dizer ou acrescentar entre tantas vozes...  Gritamos pq somos muitas mas quando falamos ouvidos fingem demência onde é ciência, é fato exposto, fratura exposta... Queremos respostas! Queremos respostas! Pra onde vão as denuncias? O que fazemos com esse eco, gritamos, gritamos, gritamos, quem nos ouve???... Pra quem gritamos???... Gritamos a nós mesmas, estejamos alertas, tanta mentira, tanta guerra bruta, a gente põe a cara na rua, a gente tira a cara do tapa, que em cima de mim mão nenhuma se atraca, a gente recupera o corpo, tudo nosso nos pertence, não somos objetos de doentes, a nossa voz nos pertence; temos gritado, vamos gritar, mas gatas, vamos nos cuidar... De mãos dadas, sigamos. Mesmo que divergentes, jamais dispersas... É guerra. E tem guerreira de voz negada levando bala por ousar falar na cara. Na voz que silencia, a gente ...

Porre de amor

Já tomei porre de amor romântico... Pr' acabar mesmo! A embriaguez é maravilhosa, mas a ressaca é de foder... Sem arrependimentos... Mas agora só aceito dose de sentimento que saiba que acaba. Brisa leve tb chapa...

Blues Mulher

 Sua casa tem um clima de som de blues, suas coxas tem um ritmo de som de blues. Seus lábios molhados tem compasso de som de blues. Ela é blues do olhar até as coxas.

Carta para o tempo

Procurei em quase todo sorriso tímido pelo qual me encantei a sua timidez, um charme natural. Ainda posso ver você dançando desajeitado, tempos perdidos. Foi ali que eu me encantei, nunca te contei, foi antes mesmo de te conhecer, e a blusa listrada azul e preta, lembrava a do Freddy Krueger. Ainda posso ver seus olhos castanhos, e eu perdida na profundidade daquele olhar que até ali nunca me encarou, e o cinema mudo que se segue nessa cena, até o ônibus do Grajaú atracar. A tempestade que chegou e o guarda chuvas enorme de filme, o som melódico do ritmo da chuva de verão, eu observo o moço tímido com receio do quartel, são dezoito anos e uma estrela do PT no boné. Parece que eu nem ligo, mas observei cada detalhe. Foi a única vez na vida em que eu observei cada detalhe de alguém. A dor do detalhe impregna. Já não chamo mais de dor, chamo de saudade. Saudade tem beleza, felicidade e tristeza, tudo conjugado. E a certeza de que se viveu feliz. E feliz de quem sabe que foi feliz, felicid...

Eu quero a sorte do não querer

Eu quero a sorte de um amor tranquilo... Eu quero fruta do pé... Eu quero desfrutar da paz do não querer. Mas teimo em insistir, em não esquecer. Que o raio que o parta, pra que eu parta desse portal perdido no tempo e no espaço. Já fiz promessa, tomei floral, recorri à filosofia e psicanálise e nessa análise material entendi que o amor romântico só faz mal. Que fique passado no passado, pretérito imperfeito. Imperfeito, já deixei até as idealizações. Tudo em vão. Já disse não, nunca mais, até nunca, jamais. Foi tudo blefe... Sigo perdida, sem rumo, tropeçando em rastros virtuais... Se é mito eu mudo, desmistifico, teimo em não arrancar oculta raiz de todo mal... Que farei de mim sem o mito do amor inicial? E como arrancar parte de si pra partir pro carnaval... Seria mais simples se multidões não multiplicassem meus vazis. Sigo assim calada, de asa quebrada a descansar. Vou seguir, na avenida eu vou sorrir, o sorriso bambo do bom samba de Tom, da avenida de quarta de fim. Sorrindo e sa...