quarta-feira, 14 de junho de 2017

Das que se calam...

Não, eu não posso contar, eu não posso contar, eu não posso contar!... Essa dor que me dá todas as vezes que eu me lembro, se eu me lembro, pq eu tento mas fiz tanto esforço tão tremendo pra esquecer que agora o que me dá são vultos daquela dor que eu passei... E sinto, a dor física se transforma em psicose, agressão que dói no peito toda vez que eu me lembrar... Mas eu não posso contar, essa dor que me dá, eu não posso contar! Porque essa dor dói em muita gente, quem me entende e consegue explicar... Essa dor dói em muita gente e ainda vão me julgar... Olha lá, portou-se como puta, escolheu estar lá... Como gritar? Se eu tava entre quatro paredes e fui eu mesma quem quis, fui eu quem pediu... Não, eu me lembro bem, eu pedi foi pra parar que daquele jeito não dava pra gozar... Mas ele foi me querendo, foi metendo, foi dizendo que dava pra aguentar... Que era assim mesmo... É assim mesmo o remédio amargo que se toma quando eu vejo que num me dei conta de que ele estava a me estuprar... Eu senti gosto amargo, achei que era assim mesmo, uma hora eu ia gostar, me acostumar... Ele veio diferente, cada vez mais carente de anal pra se saciar... E eu cada vez menos envolvida, sendo chamada de puta quando desviava o olhar... Cada vez ele avisou menos, sempre me querendo ele ia era direto logo lá... Eu cada vez gozava menos, cada vez gostava menos e aquilo começou a me enojar... Ele deitava na cama junto comigo, eu mudava de quarto e ele ia atrás, atrás, por trás, sempre, cada vez mais, sem pedir, sem pudor, cheio de rancor de eu querer me libertar... A primeira festa sem ele tinha gente em toda parte a me vigiar... A primeira noite sem ele foi de aliviar, a que tive que voltar pra sua casa foi de torturar... E era cada dia mais bruto, cada dia um novo insulto pra me castigar... cada dia menos beijo, cada dia mais sexo sem comigo falar, sem perguntar, sem me tocar... Só meu cu. Ele foi me castigando e eu tava sozinha lá. Eu tava no silêncio e no escuro, a angustia me tomava e eu não sabia lidar... O que eu fiz foi calar... Cada vez mais displicente, cada vez mais distante de tudo, cada vez mais calada, isolada, sem forças pra andar... E onde eu fui parar? Naquela cama nojenta onde ele atravessava meu sono pra me violentar... Eu não sabia o que era, pra mim eu tava lá porque eu quis estar... Todo mundo tinha me dito que não era hora de ter partido, que eu não devia com ele ficar... mas eu tava lá, cada vez mais sozinha e humilhada, de cara virada pra não enxergar... e ele atrás de mim, sempre por trás de mim... Fugi em silêncio com dinheiro emprestado nunca pago, eu vim mimbora pra bem longe, ele ficou por lá... Mas ele tá cá, me assombra, me atormenta... Eu fui embora mas não sem antes de ele me dar um remédio pra abortar: comeu meu cu no mesmo dia e não me perguntou como eu ia ficar. E foi tanto enjoo e tanto medo, medo da morte vir vindo na vida nessa morte que eu vivia mesmo sem desencarnar. Isso é pesado, eu não posso falar... nada de denunciar! As dores que me doem doem nas outras que vão me escutar... Eu não posso falar, a dor que dói em mim doerá nos meus entes queridos e eu não posso falar, ainda podem me julgar... Eu não posso falar e tenho meus motivos porque aquele abortivo deu pra não funcionar.

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