quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vida de Gado

Ando lendo muito Nelson Rodrigues... Fui contaminda por sua síndrome cronista... Hoje no trem visualizei essa crônica... A cena é simples, simplesmente cotidiana de paulistanos sem carro a caminho do trabalho às 7h30 da manhã... Mas hoje não foi dia de todo dia, dia-a-dia, houve uma novidade: algum trem quebrara na primeira manhã. Acontece às vezes, muda tudo. O trem que passa precisamente de 5 em 5 minutos (nesse horário em que todos saimos de casa rumo ao trabalho), sistematicamente de 5 em 5 minutos, passou a 15, e as pessoas se amontoavam nas plataformas. E a angústia mutiplicava nos corações. Como é desesperador um dia que não foi programado de acordo com o grande relógio virtual da cidade que não para! Dentro do trem, a situação de gado que somos trasnsportados diariamente e que é sublimada, esquecida todo dia foi verbalizada... (Foi no transporte público que eu descobri que aquela lei da física "dois corpos não ocupam um mesmo lugar ao mesmo tempo" poderia ter-se equivocado um pouco, coisas de papel e teoria, uma voltinha às 6 da tarde num dia e já desmentiria...) Enfim, um pobre coitado desses rapazes bem educados disse: "Não empurra gente, a gente não precisa se tratar desse jeito!" A gargalhada foi geral. (Bem que disse que saímos do dia-a-dia, do programado, num dia normal a gente não ouve, não vê e não fala com ninguém, a não ser que já se conheça a pessoa. As risadas dos absurdos que se ouve são discretamente internas...). Poxa... eu pensei, coitado! Esse menino foi mal educado, falar de educação em trem é falta de educação! Não teria ele razão? Seria preciso empurrar-nos daquele jeito? Na hora de sair estava tão longe da porta que não visualizei como desceria... Pedi licença ao rapaz da minha frente e, num movimento delicadamente cinematográfico, troquei de lugar com ele, depois fiz o mesmo com outra moça ("Você vai descer nessa estação? Não? Me dá licença, por favor.") e outra e derrepente estava logo atrás dos que também desceriam. Virei pra uma moça atrás de mim e disse: "um cadinho de educação ainda resolve!".
Poderia acabar por aqui a minha pretensa crônica, porém, dessa forma pareceria que a "moral da história" seria que a eduação vem de berço. Não, não. Essa situação não é um simples problema de educação pessoal!...
Esqueci de me referir a uma outra cena matinal, do trem de hoje. Quando o moço disse isso e todos se riram, também sai de dentro de dentro de mim e pronunciei (só pro senhor que, sentado, segurava uma de minhas bolsas - afinal, professor sempre está cheio de coisas...): "Deviamos pegar toda essa raiva e ir reclamar na CPTM, ou lembrar na hora da eleição quando fizerem a propaganda da qualidade do trem (é que esse trem tem a metade do número de vagões do que poderia e deveria...)". Se fosse outro dia qualquer só quem me daria ouvidos, ao menos aparentemente, seria o senhor que segurava minha bolsa, mas, algum tempo depois surgiria a primeira irônia: "tem gente que quer andar de trem e quer tá confortável, vai de jegue, de avião." "Vamos lá reclamar, dai volta a surfar no trem que nem na minha época. Vamos lá fazer protesto, parar tudo, vai resolver muito...". Eu tive vergonha do que disse no primeiro minuto, e era tão triste ser tão utópica... Mas respirei fundo e pensei que isso é que é democracia, falamos é pra ouvir mesmo. Mas, o que mais me lembra Nelson Rodrigues nisso tudo é que lembro da última crônica dele que li, na qual ele dizia da triteza de Bloch ao voltar de uma visita à Russia e dizer "eles ainda comem três pepinos" e outro alguém replicar "na época do czar era só um!". Seria muito distante comparar isso com "Vamos lá reclamar, dai volta a surfar no trem que nem na minha época."???...

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