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Amor de mim

 Transbordo em maré cheia, luz profunda e cintilante, algo bonito e calmo, sereno como águas mansas, brilho contínuo, cheiro de prece, que me aquece, é amor de mim. 

Diálogos vívidos

 - Mas o que é a vida? - A vida, minha amiga, é isso que passa. 

Trilhas e enredos

 Entre trilhas sonoras e trilhos do trem... Existo. Re-existo. Entre mim e o outro há um caminho. Cada ser que existe nesta Terra traz consigo seu próprio caminho. Somos encruzilhadas. Se o nome santo, teu guia ou assusta o caminho, mede contigo tua passada. Abre caminho. Mede tua passada. Se há momentos em que, num cochicho, resmugam tua caminhada. Segue caminho. Só ouve tua passada. Ouve tua trilha. Trilhos e trilhas, vida que segue, adeus que se seguem, e outras chegadas. Ninguém se vai de véspera e nem se achega sem que seja na hora marcada. Se vem alguém tão distante, seus rostos se cruzam, mas não aprofundas olho no olho, ecoa, seguem, caminham, mas não lhe consegue entrelaçar as mãos, repara, é tua sombra projetada. Ilumina-te, para que sendo Sol e sombras distantes onde te refugias em aconchego do calor escaldante, quem deveras se aproxima esteja disposto a aquecer-se enquanto dia, e que, sendo calor demais, este alguém se saiba também repousar em tuas sombras e tê-las por ...

Eclipse

 O escuro das minhas sombras ilumino com poesia. Já quis muito negar-lhes espaço na minha vida... Hoje percebo que nelas jogo a minha luz e no contraste tão agridoce, antes que me azede, elas me cedem sua beleza narcísica em forma de Arte.  Eu bem que reparo narciso no outro. Nele projeto minhas sombras narcísicas também. Elas sussurram: ele não tem luz própria, quer alimentar-se da sua luz! Me sinto Sol. E queimo-me em explosões de Ego. Ok, Ele me protege, diz-me quem sou e que o que vejo é apenas reflexo de mim... Mas antes que eu me afogue no canto da sereia... E exploda a vida alheia... Eu sossego. Leoa. Seja mais gata. Faço me carinho, ronrono. Observo os fantasmas que me sugam nessa solidão das sombras... Da luz do Ego lhes projeto, esforço, envio. Luz que me cega agora ilumina. Traz de volta a vida. Traz-me de volta à vida. Já me entendo outra vez Lua. E que nunca fui sua e que ninguém foi de mim.  Dodói que não doi mais, mas ainda cheira cicatriz. Foi atriz que de...

Poética da Re-existência (pros crias)

Companheirx, re-existamos! Num ato de fé sejamos tudo aquilo que quiseram nos fazer morrer... O genocídio da nossa gente começa na mente. A força da mulher, a cura do rapé, o ato de fé! A língua, os corpos, a Arte que é parte de algo maior... Tudo isso que nos roubaram: violentaram a nossa fé. Sim, que seja assim, repetido três, quatro, cinco, seis vezes, três vezes... Fé, fé, fé, fé, fé, fé, fé... Re-existamos. Somos frutos da nossa gente, eles matam, mas nois é igual semente... Da árvore que nois veio, raizes profundas, crias mas nunca mais mudas, florescemos, crescemos, pro-criamos... Nos re-inventamos... Lugares tão nossos, e essa merda toda pra nois é tudo adubo... Eu não mudo. Eu não me mudo. Por isso eu falo, por isso eu canto. Nos transformam. Nos trans-formamos. Raizes profundas. Eu vim pra semente. Nasci na sua mente. Re-existamos.

Filhas da Terra

- Xiiiuuuu - Foi o sussurro - É o vento? - A brisa? - São as vozes, minha querida... - Xiuuuu!! - Escuta!!! - Arrepio... Quem me cutuca? - Para e apenas e escuta! - É a minha alma? - Escuta tua alma! - São meus pensamentos? - Deixe-os ir no rio da vida... - Minha querida, são as almas... - As vozes? - Sim, suas raizes... - Suspiramos sabedoria em teus ouvidos... - Desde a sua infância, desde que te parimos, cuidamos de ti. - Abandona teus pensamentos princesa, escuta tua alma, ouça tuas vozes! - Mas eu nem gosto de monarquia... - Esquece essas palavras brancas. Traduza a língua morta da tua gente que nunca morre. Tu és filha das filhas da terra. És princesa onde quem reina é a sabedoria da Terra. Taxaua.

Mascarados

Eu tinha decidido não tomar qualquer decisão sobre sentir ou não sentir, valer ou não valer, querer ou não querer, aceitar ou não aceitar, ser ou não ser... Nada que não fosse feito a partir do olhar... Eu decidiria olhando nos seus olhos... Nada mais de digitar. Nada que fosse virtual. Eu tinha escolhido viver apenas o que fosse real... Tem ate um bilhete na minha geladeira: "só o agora é real. Só o que existe agora existe de verdade"... E o que existe agora?... Ironia da vida... Então ria! Rir pra não chorar... De quantas vezes eu desviei o olhar... Quantas vezes eu nem quis te encarar, eu nem quis me encarar... eu nem quis encarar... E agora eu nem sei mais o que era pra se encarar... Talvez agora o real seja virtual... Eu sei lá... Tem uma certeza calada no peito... mas eu não gosto de olhar pra ela... Ela mora lá, não sei como é que eu lhe concebi... Mas ela mora lá... É como engravidar de vez única... Fizemos sexo sem proteção. Deveria existir camisinha de olhar, pra en...