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Ser eu

Eu poderia ser normal, normal de norma, normativo, normalidade, mediocridade (mediano, igual a média...). Eu poderia ter cabelos longos, chapinha, luzes, botas, salto alto, sapatos, sapatos, sapatos, maquiagem, roupa da moda, jóias, unhas pintadas, casa arrumada, cartão de crédito a pagar, bolsas e mais bolsas. E barriga tanquinho, peso 50, depois de horas e horas de academia 5 vezes por semana, mais cabalereiro uma, manicure duas. Eu poderia sim ser assim, tão assim, tão assim assim. Mas não sou do sim. Não sou assim. Eu poderia ser, mas resolvi ser, ser um ser, ser de verdade. Escolhi eu sou, ao invés do poderia ser. Eu escolhi ser, ser eu. Sou do não sou assim.

Mais

Estupenda, estupefata, luxuriante, indomável, angelicalmente inacreditável...uma mentira ambulante, uma verdade impronunciável, um contraste operante, impossível! Mas é a mais pura verdade! Uma humanidade humana e humanamente pura e torpe. No que se esconde e a quem calhe, que se cale, a que serve esses implurais impossíveis, essa exatidão pobre, esses certos e errados, pólos feitos de costumes de desamor, pq o amor em suas infimas significações e possibilidades só pode ser plural!

Amor

O amor é mesmo assim! Como assim? Assim. Assim sendo... só poderia ser assim. Assim assim. "Que tal assim? Que tal, assim? Que tal? Assim?..." Por assim dizer, assim. Desse mesmo jeito de sempre. Amor.

Ensaio sobre a cegueira

Espectadores. Acostumamo-nos com esta posição. A de olhar sem ver, sem exigir-se qualquer ação. Em vão, nossos olhos são agora então em vão. Bombardiados de imagens cegaram. Chegaram ao ponto do não reconhecimento, é o tempo da não identidade, falta de identificação. Espectadores, à espera. À espera da próxima imagem, catástrofe ou não, em vão... é só pra ver, não pra olhar, enxergar, sentir, ressentir, magoar, agitar, acionar, partir. É só pra assistir...ou melhor, pra assistir à, não pra assistir. Assassinatos, roubos, violências mútiplas e de todas as partes, misérias, não mais misérias criadas, articuladas, gravadas agora ao vivo e a cores. Que cores? As cores agora por hora também são raras...Tá na cara e parece até que assim é sempre verdade, um alarde, mas só um alarde, nada que dispare. E a arte? Na maior parte, nada que arte cule, apenas mais um cotidiano, agora em imagens, imagens, imagens, que nos anestesiaram, nos engessaram, nos espectadorizaram. Há de se espectorar, botar...

Aniversário

Ariana do lado de baixo do Equador, nasci no outono. Do mês de abril sai como sairam muitos poetas mauditos antes de mim: Rimbaud, Baudelaire, Renato Russo, Cazuza. Mas tenho ainda a suavidade do outono cantado por Quintana... Dessa mistura de áries e outono que só é possível à brasileira, do lado Sul do mundo, é que eu nasci. É que sou bem assim. Bem Áries. Bem Outono. E ainda nasci depois das 22 horas; então, só poderia ser Boêmia! Meu lado do dia é deveras diferente do da noite, e esse agito preguiçoso só poderia ser outono! E essa contradição toda só poderia ser de ariana! Áries ascendente capricórnio... Ainda mais do dia 7... Plena perfeição!...

Ser

Ser o que se vê. Ser o que se é. O que se vê é o que se é? O que se é é o que não se vê? Não se vê o que se é? Só se vê o que se quer ver? Ser o que se quer ver? Ver o que se quer ser? Ser o que se quer ser mas que não se quer ver? Ser é o que se vê? Se vê o que é um ser? Ser é ser sem ver? Ser só é quando se vê? Ver nem sempre é o que se é? Ser é o que se vê ou ser é o que se é?

Comunicação

Já falei sem parar. Já silenciei. Já gritei loucamente. Já calei e falei tudo para dentro. Agora espero a hora de poder me ouvir... Eu tentei me dizer, me explicitar, tentei explicar tudo que era incalável e numa violência inexplicável rompia em mim; não consegui. Então implodi. E por ninguém ouvir, desencanei e nem liguei, passei a nada explicar, a nada dizer, apenas fazer. E descobri que os atos sem respaldo, sem embasamento, são um tormento e perfeito pretexto a que quer emprestar-te palavras, dizer por ti o que não justificas de tua ação...Nada então...Calei. Calejei. Numa esperança profunda de que o silênio diga o que se não pode explicar...E que se descubra que quem cala não consente. Apenas sente. Sentir que palavras demais, palavras a mais são fúteis e infrutíferas... Sente que não se entenda, que não se sinta. Que não se ouça uma voz rouca já cansou de tanto de gritar, de tanto falar e agora sussurra o que esse barulho ensurdecedor da sociedade moderna, pós moderna, demodé, nã...